7 de fevereiro de 2015

Seca não se deve ao consumo pelas casas; agricultura gasta 70% da águaApenas 10% da água consumida é por residências. A agricultura é responsável por 70% do gasto


Valérya Próspero 
Revista Fapemat Ciência


João Conceição/Ascom

Pesquisador da UFMT, Paulo Teixeira, explica que todos devem se conscientizar sobre a falta de água

Pouca gente sabe, mas o banho demorado, limpeza da calçada de casa ou escovar os dentes com a torneira aberta não são os verdadeiros vilões para a água estar acabando. O professor da UFMT Paulo Teixeira explica que o líquido utilizado nas residências corresponde a apenas 10% do total. “Isso não significa que nós não temos que economizar”, ressalta ao lembrar também que é a população em geral quem joga garrafa pet, sofá, lata de cerveja nos rios.

Do que “sobra”, 20% são consumidos pela indústria, que já começa a investir no reuso, e 70% pela agricultura. Dessa forma, o professor ressalta duas preocupações: uma é a de que o ser humano precisa de comida, e, por isso, a agricultura não deve ser colocada totalmente como vilã. A outra trata da necessidade de água para viver. Como solução, sugere que no país, especialmente em Mato Grosso, que tem o setor como principal fonte da economia, seja adotado novo modelo para produção, a fim de economizar água.

A iniciativa, contudo, deve vir acompanhada da preocupação em preservar as áreas úmidas. Teixeira conta que, segundo pesquisa feita pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), se nada for feito para mudar a poluição e desmatamento, em 100 anos 85% das áreas úmidas vão desaparecer e a temperatura média vai aumentar 6°C no mundo. “As áreas úmidas são poços de carbono. Elas, secando, vão liberar CO2 na atmosfera e alimentar mais ainda o efeito estufa”, explica.

No Brasil, a situação grave teve destaque com a falta de água em São Paulo. Teixeira lembra que a maior cidade do país degradou dois rios, Pinheiros e Tietê, ao acabar com a mata ciliar, canalizando e transformando ambos em um depósito de esgoto.

A mata ciliar, lagos, manguezais e pântanos são exemplos de áreas úmidas, essenciais para o armazenamento e purificação de água, retenção de sedimentos, recarga do nível de águas do solo, regulação do clima local e regional e à manutenção da biodiversidade. “A área úmida funciona como se fosse uma esponja: quando chove, absorve a água; quando seca, vai lentamente liberando H2O. Por isso, regula o ciclo hidrológico”.

O Pantanal é a maior área úmida tropical do planeta, e, apesar de boa parte dela estar no Estado vizinho, Mato Grosso do Sul, é aqui em Mato Grosso que 70% das nascentes estão, e a maioria delas ameaçada. “Existem denúncias de plantação de soja a dez metros de nascente de rio. Isso é um perigo, pois se seca a nascente, seca o rio”, lamenta. Para Teixeira, o Pantanal só está protegido ainda porque é muito grande. É uma região de 160 mil km² de inundação. “O aquífero guarani é o maior do mundo e passa embaixo da gente aqui”, conta, deixando claro que pode vir a secar.

MT e relação com a seca em SP

A falta de água do Sudeste não se deve às ações isoladas praticadas nessa região do Brasil. O fenômeno é consequência não só da poluição dos rios, da destruição da mata nas margens deles ou do desperdício. O desmatamento e a redução das áreas úmidas na região amazônica e em Mato Grosso estão diretamente ligados à falta de chuva em São Paulo, que leva a não reposição dos reservatórios para abastecer a cidade. “Chama-se evapotranspiração. Na floresta, as árvores absorvem a água do solo, as folhas transpiram e as nuvens formadas em cima das florestas, o que é chamado pelos pesquisadores de “rios voadores”, descem para chover no Sudeste”.

E completa ainda apontando que o desmatamento da Amazônia e mudanças climáticas têm como consequência a ocorrência de eventos extremos. “Quando é seco, é muito seco; quando chove, chove muito; quando é frio é muito frio”.


Reprodução

Professor Paulo Teixeira diz que no Estado deve ser adotado um novo modelo para produção a fim de economizar água

Neste sentido, Teixeira explica que o tratamento de esgoto, para que a água purificada seja jogada nos rios, é uma das medidas urgentes a serem tomadas. O Governo e a população devem cuidar das Áreas de Preservação Permanente (APP) que estão na beira do rio. Isso quer dizer que qualquer propriedade nas margens do rio está irregular, e o Governo precisa fiscalizar e punir quem desrespeita a lei. Além disso, Teixeira prega o uso de energia limpa, como hidrelétricas.

Ressalta que há conflitos com ambientalistas, pois existem dois tipos de hidrelétrica. Uma é a que tem reservatório, a exemplo do Manso e de Itaipu, em que se acumula água como se fosse uma grande caixa d’água. “Mas os ambientalistas não querem mais que faça isso”. O outro tipo é igual à do rio Madeira e também a Teles Pires [em construção em MT, com a perspectiva de ser a maior do Estado], que são a fio d’água. Essa modalidade funciona com a água só passando pelas turbinas, respeitando o fluxo normal dos rios, o que as torna mais sensíveis à seca. Segundo o pesquisador, energia não limpa, como as termelétricas, agravam a situação do efeito estufa. 

Está em tramitação no Congresso Nacional projeto de lei do senador Blairo Maggi (PR), o PLS 750/2012, sobre a gestão do Pantanal. “Nós, do INAU e do CPP, demos contribuição, mas ainda há várias críticas à proposta. Uma das principais é que o projeto contraria a própria Legislação Federal. A política nacional diz que a gestão dos recursos hídricos tem que ser feita considerando a bacia hidrográfica como um todo. Então, não pode fazer uma lei para o Pantanal, calculando só a planície inundável, de 160 mil km². Tem que considerar a bacia do Alto Paraguai toda, que tem 400 mil km²”, avalia Teixeira. Para concluir, o professor afirma que no projeto do parlamentar essas regiões não estão protegidas. “Você vai proteger a caixa d’água, mas vai esquecer da torneira, de garantir que ela não esteja aberta”.

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